24.7.06

IMPESSOAS...



Você já esteve cara a cara com uma “impessoa”? Esta palavra faz sentido para você?

O termo foi usado pela esposa do ministro da Propaganda de Hitler. Referindo-se ao ditador nazista, Magda Goebbels saiu-se com essa pérola: "Hitler é simplesmente uma impessoa. Não se pode atingi-lo, tocá-lo" ( Jerônimo Teixeira, “A cenografia da maldade”. VEJA, Edição 1964, de 12 de julho de 2006 ).

Uma “impessoa”. Talvez alguém desprovido de humanidade, ou de sentimentos humanos. Talvez alguém impenetrável, inatingível. Talvez alguém frio, calculista, capaz das maiores atrocidades e incapaz da menor intimidade... Gente que muito fala e com todos, sem abrir-se com ninguém. Gente que esconde o ‘eu’, que representa e que ilude... Nem sei se é gente mesmo.

Agora talvez você já tenha condições melhores de responder às perguntas que iniciam estas linhas. Talvez agora você comece a se lembrar de pessoas ( espero sejam poucas ) que se enquadrariam bem na descrição de uma “impessoa”. Possivelmente elas estejam no seu ambiente de trabalho, na sua igreja ou mesmo na sua casa. Quem sabe você esteja agora mesmo sofrendo a dor de ter que conviver com uma “impessoa”?

“Impessoas” no trabalho tornam o ambiente irrespirável, pois são como paredes ou pilastras que separam e atrapalham as pessoas. Na igreja elas pulverizam a hipocrisia, pois a vida passa a ser o que parece e deixa de parecer o é. Na família a “impessoa” incita contendas, pois nunca é suprida e impede, o quanto pode, que os outros o sejam.

Há um abismo entre o Evangelho e a “impessoa”. Um não vive no outro. O Evangelho é essencialmente pessoal, íntimo e cheio de emoções. A “impessoa” é superficial em suas relações, artificial em suas expressões e racional em suas declarações. Quando chora ou sorri, a “impessoa” apenas representa para os outros e, no fervor da neurose, para si mesma. O Evangelho é feito de lágrimas de dor e de alegrias; é constituído de sentimentos e de vida; é finalmente amor.
O Evangelho é amor que renuncia, que perdoa e que se doa. É vida que se compartilha, é pão que se divide, é semente de paz e de harmonia que se planta a cada instante, em cada coração.

O Evangelho é graça temperando a justiça e amor temperando a razão. É dar a chance mesmo quando não é pedida, é ajudar o que merece açoite, é “olhar com simpatia os erros de um irmão, e todos ajuda-lo com branda compaixão.”

O Evangelho é graça que acolhe e que edifica. Que olha nos olhos, que não foge ao confronto e que conforta com o olhar de misericórdia e de tenro afeto. É luz que viabiliza a caminhada na escuridão: é lua de noite e é sol de dia.

O Evangelho, por fim, alcança a “impessoa” e faz dela uma pessoa. “Eu lhes darei um coração novo e uma nova mente. Tirarei deles o coração de pedra, desobediente, e lhes darei um coração humano, obediente.” ( Ezequiel 11:19 – NTLH ). Esta nova pessoa vai desejar o que é genuíno e autêntico, vai preferir a intimidade ao superficial e o verdadeiro ao artificial... Vai ser atingível, vulnerável e ensinável. Será nova criatura!

“É por causa do sangue que foi derramado, em prova do seu grande amor.”

Soli Deo gloria.


14.7.06

Se o Parreira fosse pastor...
Uma reflexão sobre performance e resultado na igreja



É claro que está todo mundo triste e muitos até chateados com a recente decepção da Seleção Brasileira de Futebol, na Copa do Mundo na Alemanha. Não faltam também os que lançam toda responsabilidade em cima do técnico Parreira.
Logo após o primeiro jogo, contra a Croácia, quando o Brasil ganhou de um a zero, Parreira concedeu uma entrevista coletiva, na qual, argüido sobre o magro desempenho do time, o técnico da nossa seleção deu a seguinte resposta: “O resultado foi excelente, mas temos que melhorar a performance.” Quer dizer, mesmo com uma performance ruim, a seleção conseguiu um bom resultado. Ficou claro que o foco de Parreira não estava na performance, mas sim no resultado. Ou seja, conquanto que o resultado continuasse sendo satisfatório, o desempenho seria um aspecto de somenos importância. A seleção poderia até sagrar-se hexa-campeã do mundo, com uma performance deplorável!
“O resultado foi excelente,mas temos que melhorar a performance.”
Chamou a minha atenção esta relação entre resultado e performance na liderança. Dependendo da visão do líder, o foco vai ou para a uma ou para o outro. E dependendo para onde se dirige o foco, conhece-se o coração e o jaez do líder. Um líder com o foco de sua vida voltado para resultados pode levar seus liderados a experiências de dor, derrota e sofrimento.
Esta constatação é real em qualquer empreendimento, empresa, grupo ou organização, inclusive na igreja. Nesta última então os danos sofridos em função do foco da liderança distorcido ou erroneamente canalizado, são enormes.
Na realidade da igreja a análise de resultados é normalmente feita a partir de parâmetros como conversões, batismos, freqüência, receita financeira etc. Assim, quando o foco da liderança está nos resultados, esses parâmetros tornam-se os indicadores mais importantes. Então, a pressão para “melhorar os índices” é muito grande. Da liderança, a visão migra para a membresia, que começa perguntar sobre a razão de indicadores tão tímidos e a fazer comparações com desempenhos de ministérios ou gestões anteriores.
Outro aspecto é que esses mesmos indicadores se transformam em instrumentos ou requisitos para avaliações de desempenho com vistas à aprovação ou reprovação de líderes. Em muitos casos os próprios líderes se sentem derrotados pela constatação índices sofríveis em sua gestão. Não raro renunciam ou se demitem em reconhecimento público de incapacidade de liderança... tudo por causa da obsessão pelos resultados.
No espectro da visibilidade do ministério também verificamos o impacto da visão voltada para resultados. Igreja boa é a grande, culto bom é o cheio, administração boa é a que guarda dinheiro e multiplica propriedades e assim vai. A competição prepondera e, em alguns contextos, metas quantitativas são estabelecidas, células ou pequenos grupos têm que se multiplicar, valores precisam ser arrecadados, conversões e batismos são cobrados.
O caos bate logo à porta quando o resultado deixa de ser o fruto natural e tempestivo de um ministério sério e comprometido, para se tornar o alvo, a meta, a razão de ser de tudo; migra da condição de conseqüência para a de propósito. É o fim.
Por outro lado, no entanto, tudo é diferente quando o foco está na performance. Neste caso os números não ajudam muito. Agora o que vale são atitudes, decisões, escolhas, condutas e prioridades. O holofote está aceso na direção dos propósitos eternos de Deus para a igreja e não perspectiva quantitativa.
Com a visão voltada para o desempenho, o que se deseja é qualitativo, o que se quer é ver são os valores, os princípios e a saúde da igreja. Assim, igreja boa passa ser a saudável, culto bom passa a ser o que cumpre sua finalidade, administração boa passa a ser a que viabiliza o alcance dos objetivos fins da igreja: adoração, comunhão, evangelismo, discipulado e serviço.
Os indicativos se tornam, igualmente, qualitativos e, naturalmente, outros. O testemunho, a valorização da vida, a obediência, a visão missionária, a boa mordomia dos dons, recursos, tempo, influência e relacionamentos. Tudo precisa ser relevante e saudável para que a igreja seja a igreja de todos.
O fruto também vem quando o foco está na performance. Porém, é fruto tempestivo, maduro e saudável; é fruto consistente. Talvez em número menor, no início, mas logo se torna abundante sem perder o sabor inerente à qualidade. É a glória.
O fruto também vemquando o foco está na performance
O que se espera, na verdade, é que essa visão revelada por Parreira logo após o primeiro jogo do Brasil na Copa, não habite o coração da liderança de nossas igrejas. Após o último jogo da Seleção Brasileira, quando foi derrotada pela Seleção da França, Parreira voltou aos repórteres, desta vez para reconhecer que a derrota emanou exatamente de onde não estava o foco... da performance.
O que se espera é que sejamos líderes com o foco voltado para o desempenho, para os eternos propósitos de Deus para nossas vidas e igrejas. O que se espera que a liderança das igrejas tenha coragem para vivenciar os valores do Evangelho, equilibrando a fé com o planejamento, a santidade com perdão, a disciplina com o amor, a administração austera com visão espiritual, a liderança com o serviço.
Bom, Parreira não é pastor... isso já é um consolo. Queira Deus não tenha ele entres os líderes das nossas igrejas, seus sósias ou discípulos!

O PAPA A PROCURA DE DEUS...



O Papa Bento XVI, em visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, chocado com o que viu rememorando as atrocidades praticadas pelo Nazismo, saiu com essa: “...Onde estava Deus naqueles dias...”. A matéria foi publicada na mídia brasileira e mundial, por exemplo na revista Veja ( edição de 7 de junho último ).
A pergunta de Bento XVI causou espanto precisamente por ser ele o maior líder da igreja católica no mundo. Como entender uma pessoa considerada em seu segmento religioso como “representante de Deus” fazer uma indagação de natureza teológica que revela tanta perplexidade?
Na verdade, o pano de fundo da pergunta papal não é apenas de natureza teológica, mas também de matriz emocional. O Papa, sendo um homem como qualquer de nós, lida com os mesmos dilemas existenciais que rondam a alma de todos os mortais. Se Deus existe e é o soberano do universo, porque não intervém diante de monstruosidades como a que levou à more te 1,5 milhão de pessoas no inferno nazista de Auschwitz? Porquê tanta coisa ruim acontece a pessoas que parecem ser tão boas?
A primeira lição dessa visita papal é exatamente a sua humanidade transparecendo numa pessoa como Elias, que “...era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos...” ( Tiago 5;17 ). O Papa é um grande líder, é o chefe do Estado do Vaticano e o grande dirigente da Igreja Católica. Muitos Papas anteriores foram pessoas notáveis, religiosos de extrema visão humanitária. Mas sempre homens, pessoas como todos nós, cheias de indagações e de perplexidades residindo na alma. Ou mesmo como Elias, deprimidos e cheios de dúvidas e de medos habitando no coração.
A outra lição tem a ver com a nossa convicção teológica. Como Deus age e como intervém na história dos homens? Mesmo diante de perguntas aparentemente sem resposta, como essa pronunciada pelo Papa e motivante deste texto, quando analisamos a ação de Deus ao longo da história, o vemos como um Deus que age através de pessoas. Assim olhamos para Auschwitz não como uma abstenção de Deus, mas sim como uma decepção dos homens. Verdade, quem ficou decepcionado foi Deus e não os homens. O Senhor sempre esteve no seu lugar, aguardando a ação dos homens de bem, especialmente dos líderes religiosos que sempre gerenciaram parcela significativa do poder mundial.
Aliás, ao longo da história, Deus tem se decepcionado muito com os homens. Não apenas em situações de catástrofes sociais, políticas e internacionais. Deus tem curtido decepção com a sua “coroa da criação” em dimensões bem menos expostas aos holofotes da história. Nos lares, nos relacionamentos, na vida profissional, nos negócios, no tato com o meio ambiente. Nessas instâncias da nossa vida, muita decepção tem chegado ao coração de Deus.
Nesse sentido, vale muito a pena uma reflexão a partir da seguinte pergunta: Você tem decepcionado Deus? Ou seja, tem se omitido na luta pela justiça, tem abandonado seu posto como soldado do amor e servo da verdade? Como cônjuge, pais, filhos, profissionais e cidadãos, temos correspondido às expectativas de Deus?
É claro que não queremos ver repetido o escândalo de Auschwitz. Mas também devemos ser verdadeiros militantes para que Auschwitz não seja reeditada em micro-universos como os nossos lares, igrejas, repartições e praças públicas.
Deus está sempre lá, no lugar dele, nos olhando com seus olhos de amor, perdão, graça e misericórdia. Aguardando nossa atitude de rejeição a Auschwitz e de preservação do nosso compromisso com os valores do Seu reino. Amém por isso.

27.5.06

Atestado de loucura
O ministério pastoral como uma onda gigante


Lécio Dornas

Partindo para a onda...


Talvez muitos de vocês nunca ouviram nada a respeito, mas o grande lance hoje para quem curte o Surf e os esportes nas águas é o tow-in ( literalmente “rebocado para dentro”, ou ‘surf rebocado’ como é conhecido aqui no Brasil ).
O esporte é uma verdadeira loucura, com uma descarga de adrenalina sem precedentes na história do esporte universal. Veja só como é o negócio: Um atleta conhecido como big rider, é levado na carona de um jet ski, ao topo de uma onda gigantesca de onde desce surfando.
O esporte é praticado em ondas de cerca de 6 metros e cada surfista que entra numa onda assim, arrisca a vida.
O Brasil já tem vários big riders famosos. Mas merece destaque o pernambucano Carlos Burle, que desceu a maior onda . já surfada em Maverick’s, norte da Califonia, EUA, em 2002. Imaginem vocês que este brasileiro de 35 anos ( na época com 31 aninhos ) foi rebocado pelo seu companheiro Eraldo Gueiros e desceu uma onda de cerca de 22 metros.
O esporte é tão perigoso que um site na internet recentemente divulgou o seguinte: “Os principais riscos aos quais os atletas estão sujeitos é desmaiar por falta de ar e conseqüentemente morrer afogado, cair de mal jeito – nada agradável quando a velocidade alcançada pode chegar até 80 km/h – e deslocar ou quebrar algum membro. Bater no fundo de coral e sofrer lacerações, rodar com o lip (parte superior da onda) e no impacto contra a água, quebrando o pescoço ou qualquer outro osso, são outras ocorrências comuns. Por causa disso tudo, os atletas assinam um termo de responsabilidade antes de entrar no mar. Os mais brincalhões dizem que é o famoso “atestado de loucura” ( www.terra.com.br/agibin/index_frame/jovem/falaserio/, no ar em 9 de março de 2006 ).
Você assinaria um atestado desses e se aventuraria na prática de um esporte como este que promete lhe proporcionar muita emoção e indescritíveis experiências emocionais e sabe-se lá de quantas outras naturezas?
Muito bem, mas é exatamente isso que cada pastor faz ao assinar o termo de posse e assumir a liderança de uma igreja local. Normalmente ele é rebocado até aquela posição pelo seu prestigio, por sua reputação, por sua experiência em outros ministérios etc, situações e eventos usados pelo jet ski de Deus para conduzi-lo ao ponto de onde ele vai enfrentar a maior e mais fascinante aventura de toda sua vida: pastorear uma igreja local.
As igrejas, como as ondas do mar, são diferentes umas das outras. De forma que a experiência em outras igrejas ajuda apenas como referencial, pois cada pastorado é uma nova e singular aventura. Há ondas maiores e menores, igrejas também... No mar as maiores são mais perigosas e muito mais desafiadoras; com as igrejas é um pouco diferente, o desafio e os perigos são basicamente os mesmos, embora saibamos que as igrejas grandes e antigas representam um universo menos conhecido por parte de quem as vê de fora, portanto, um perigo maior.
A metáfora do surfista se preparando para ‘pegar’ uma onda, aplicada à liderança da igreja, foi usada por Rick Warren em seu best seller: “Uma igreja com propósitos” : “Pastorear uma igreja em crescimento, tal como surfar, pode parecer fácil para o leigo, mas não é. Requer destreza e competência” ( 1997, p.19 ). Em 1995, quando Rick Warren publicou seu livro, o tow-in tinha acabado de ser mostrado ao mundo, através de cenas do filme Endless Summer II, mostrando surfistas sendo rebocados por jet sky a ondas gigantes. O filme é de 1994, provavelmente o ano quando “Purpose-Driven Church” estava sendo escrito. Assim hoje, 11 anos mais tarde, com o tow-in ocupando o lugar de mais nova moda no desafio às ondas, podemos alargar o conceito de Rick Warren e olhar para o pastorado de uma igreja local como uma operação de alto risco, que só não vitima quem está devidamente preparado, suficientemente equipado e satisfatoriamente cercado de todo aparato de segurança disponível.
Não é raro vermos pastores deixando ministérios esmagados, emocionalmente com pescoço quebrado, psicologicamente com membros fraturados e eventualmente, com a fé abalada. Tudo por que assinaram um atestado de loucura sem as devidas precauções.
Neste artigo, o foco é precisamente lançado sobre os cuidados que um pastor precisa ter ao aceitar o desafio de pastorear uma igreja local. É necessário entender que o fato de você ser um pastor e aquela igreja desejar tê-lo como líder, não bastam para garantir o sucesso de um ministério. Veja estas dicas colhidas, não apenas da literatura do gênero, mas também de algumas dezenas de conferências, congressos e seminários que freqüentei no Brasil e no exterior e, sobretudo, da avaliação que tenho feito da minha própria experiência nesses quase vinte anos como pastor sênior de igrejas de portes pequeno, médio e grande, que tive o privilégio de pastorear nos Estados do Rio de Janeiro, Mato Grosso e, atualmente, Bahia.
Então, antes de dizer sim a um convite e antes de assinar o termo de posse, que é o nosso atestado de loucura, reflita sobre estas dicas de pastor para pastores:
1. Deixe Deus ser o seu rebocador!
No tow-in, tudo começa com a escolha de um bom rebocador. Um atleta experiente parte para uma onda gigante no jet sky conduzido por uma pessoa de sua inteira confiança e de grande afinidade. Ao assumir a liderança de uma igreja, não pule na garupa de qualquer jet sky para ser rebocado ao seu pastorado. Cuidado, muito cuidado, com as manobras, os jeitinhos, as “amizades”, os interesses denominacionais etc. Só aceite ser rebocado pelo Senhor que te chamou e te sustenta no seu ministério. “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério.” ( I Timóteo 1:12 – RA ).
Quando Deus é o seu rebocador, você pode assinar com tranqüilidade o termo de responsabilidade e enfrentar a onda gigante do seu novo ministério. Você será abençoado.
2. Tamanho não é documento, olho na missão!
Não se deixar impressionar e muito menos intimidar com o tamanho da onda é outro segredo do sucesso no tow-in. É claro que o medo está presente, na verdade o medo exerce até um papel de manter o surfista alerta e ligado em tudo à sua volta, mas a questão toda não é o tamanho da onda, mas sim o estado do mar. Perceba que, por maior que seja a onda, será sempre uma gota quando comparada ao mar. Por isso o surfista deve concentrar-se em sua missão de surfar na onda e sair dela na hora certa, em segurança.
Ao assumir a liderança pastoral de uma igreja local, mantenha-se no foco do cumprimento de sua missão: Pastorear o rebanho de Deus de forma a conduzi-lo a um crescimento saudável. Lembre-se que sua tarefa não é fazer as coisas sozinho sozinho mas, sim equipar as pessoas da igreja para que elas realizem o ministério: “Foi Ele quem “deu dons às pessoas. Ele escolheu alguns para serem apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e ainda outros para pastores e mestres da Igreja. Ele fez isso para preparar o povo de Deus para o serviço cristão, a fim de construir o corpo de Cristo.”( Efésios 4:11, 12 – NTLH ).
3. Prepare-se e equipe-se adequadamente!
Surfar numa onda de 6, 10 ou até 20 metros de altura, não é brincadeira e não pode ser levado na brincadeira. Não adianta nada querer ou sonhar em surfar uma super onda se você não se preparar para isso. Os grandes atletas das ondas chegaram lá depois de uma trajetória de treinamentos, cursos, participações em campeonatos menores; tiveram que aprender os mistérios do mar e os segredos das ondas, precisaram criar intimidade com aquelas ondas. Também precisam de equipamentos, que vão desde aqueles acessórios básicos até ferramentas mais específicas selecionadas a partir de cada realidade a ser enfrentada. Querer surfar grandes ondas sem estar preparado física, emocional e psicologicamente pode acabar em desgraça.
Não é diferente no ministério pastoral, onde o obreiro precisa estar preparado física, emocional, psicológica, acadêmica e espiritualmente. A falta de preparo adequado numa dessas dimensões pode colocar a perder todo o sonho de um pastorado promissor. Ao assumir o pastorado de uma igreja local, tenha a consciência de que você precisa cuidar de sua saúde, do seu corpo, pois o desgaste é muito grande no exercício do pastorado. Mas o equilíbrio psicológico e emocional precisa ser nutrido e a qualidade da vida espiritual deve ser a mais elevada.
Quanto ao equipamento, as ferramentas são as mais variadas, procure conhecer as estratégias e os recursos disponíveis. Atente para as experiências de outras culturas e realidades, aprenda o que está dando certo em todos os lugares, leia a respeito de novos modelos, filosofias de ministérios e sobre tudo o que tiver a ver com a igreja local. Seja um ‘devorador’ de livros e de artigos. Procure agregar à sua formação acadêmica, treinamentos e capacitações que possam ser úteis no seu ministério, seja um eterno aprendiz. “Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.” ( Efésios 4:13, 14 – RA )
4. Não se descuide da segurança!
Segurança é a regra número um no tow-in. Em alguns lugares, como em algumas ilhas do Hawai, o tow-in só pode ser praticado por atletas que primeiro se submetem a um treinamento, onde significativa parte é dedicada ao aspecto da segurança. Há questões ligadas ao condicionamento físico, ao preparo par lidar com situações de perigo, aparato de segurança compatível com a periculosidade da manobra. Enfim, se o atleta se descuidar de sua segurança, pode se tornar vítima de seu esporte amado.
O exercício do ministério pastoral também requer do obreiro que se cerque de medidas preventivas que lhe garantam a segurança necessária para liderar e abençoar seu rebanho como pastor.
Algumas medidas o protegem como não tomar decisões isolado, não agir desconsiderando quem está junto, levar em conta a opinião de quem está te ajudando a remar no mesmo barco. Também é oportuno ficar ligado às armadilhas que o inimigo arma o tempo todo; quer nas finanças, ou no relacionamento com o sexo oposto; quer no trato com o poder, ou no lidar com a vaidade. Muito cuidado! Cada um tem seu ponto franco e o diabo acaba descobrindo... ali ele ataca ferozmente. Monte guarda e cerque-se de segurança. Já vi muitos caindo que, no passado, criticaram e caluniaram que caiu. Quando você tomar conhecimento que um outro pastor caiu em qualquer área de sua vida, ore por ele, ajude-o se puder; caso não possa, interceda por ele. Aprenda com a queda dos outros e tome providências para que o inimigo não faça de você a próxima vítima. “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.” ( I Timóteo 4:16 – RA ) e ainda “Eu trato o meu corpo duramente e o obrigo a ser completamente controlado para que, depois de ter chamado outros para entrarem na luta, eu mesmo não venha a ser eliminado dela.” ( I Coríntios 9:27 – NTLH ).
5. Não tente caminhar sozinho!
O tow-in é um esporte impossível de ser praticado sozinho. O atleta de tow-in precisa desenvolver uma parceria com um outro atleta que o rebocará no jet sky até o topo da onda. É uma relação de confiança e de muita proximidade. Um acaba ‘lendo os pensamentos’ do outro, a sintonia vai ficando cada vez mais fina e quanto maior for a confiança um no outro, maiores são as chances de sucesso. Se a pessoa que atuar como rebocador for um estranho, a manobra será totalmente prejudicada.
A idéia de companheirismo e de mentoria no exercício do ministério pastoral tem sido muito difundida em nossos dias. Graças a Deus hoje se dá muita ênfase nessa necessidade de que o pastor tem de ter alguém com quem contar no seu ministério e para quem contar os seus mistérios. É claro que existe muito pietismo e muita compreensão errada e exagerada do que vem a ser mentoria; mas o fato é que é um verdadeiro desatino querer levar sozinho toda carga emocional de um pastorado.
Marcos Wunderlich é Consultor, palestrante, atua principalmente em Capacitação, Instrumentação e Implantação de Coaching e Mentoring em empresas e organizações, aliado aos processos de Gestão e Liderança de Alta Performance. Num artigo recente publicado na WEB ( http://www.consultores.com.br/artigos.asp?cod_artigo=312 , no ar em 10 de março de 2006 ), ele citou uma definição de mentoria cunhada pelo americano Jack Carew: “Mentoria é o ato de despertar as grandes possibilidades que existem nas pessoas”. Ser mentor não é vigiar o outro, tampouco subjugá-lo, mas sim despertar o outro para as suas potencialidades e valores; é faze-lo ver onde pode chegar e deixá-lo fazer as própria escolhas e tomar as própria decisões, acompanhando-o de forma a garantir-lhe apoio e auxilio sincero e verdadeiro. Wunderlich comenta, no mesmo artigo, que “Tornar-se Mentor significa tornar-se um amigo do Mentorado, num relacionamento que pode se estender por longo prazo ( ... ). A Mentoria não é terapia, mas uma forma de autodesenvolvimento a partir das orientações do Mentor.”
Ao assumir a liderança pastoral de um igreja local, eleja um parceiro de aração e compartilhamento, faça dele o seu mentor e se lance nessa tarefa de melhorar a cada dia em cada área de sua vida. Deixar-se mentoriar é declarar amor por você mesmo, é querer o próprio bem. “...toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério.” ( II Timóteo 4:11 ).
Chegando à praia...
Não resta a menor dúvida de que, de fato, assumir a liderança pastoral de uma igreja local é assinar um atestado de loucura. Porém, lembremos que “aquilo que parece ser a loucura de Deus é mais sábio do que a sabedoria humana, e aquilo que parece ser a fraqueza de Deus é mais forte do que a força humana”. ( I Coríntios 1:25 – RA ). E ainda que “Para envergonhar os sábios, Deus escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura; e, para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco.”( I Coríntios 1:27 – RA ).
Deus vai usar a loucura do Evangelho, através da loucura de ministérios pastorais locais comprometidos com os valores do Seu reino em nosso querido Brasil. Para tanto, não tenha receio de colocar em prática as estratégias e as idéias que o Senhor colocar em seu coração. Não sacralize os métodos e nunca canonize as estratégias, pois a graça e a sabedoria de Deus não são uniformes, mas sim multiformes ( I Pedro 4:10 e Efésios 3:10 ).
Deixe Deus rebocar você para as ondas enormes e maravilhosas, desafiadoras e cheias de oportunidades e de bênçãos, como você jamais conseguirá imaginar. Esta é minha versão pessoal de Jeremias 33:33 “Clama a mim, e responder-te-ei e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes, que não sabes.”

12.5.06

Liderança perdoadora
A prática do perdão como condição
para o exercício da liderança cristã
Lécio Dornas

Para início de conversa...


“Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até
quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe
perdoe? Até sete vezes?”( Mateus 18:21 – RA )
A pergunta até poderia ser tida por infantil ou, por outro lado, legalista. Mas na verdade, foi de profunda pertinência: Existe um limite pra gente perdoar quem nos ofende? Que parâmetros devem nos nortear neste assunto? A pergunta de Pedro merece reflexão, não apenas a resposta do Mestre, embora muita atenção tenha sido dada a esta e, quase nenhuma, àquela.
Porém, é exatamente quando nos fixamos na pergunta de Pedro que percebemos a importância do perdão para o exercício da liderança cristã. Pois nela, subjazem preciosas inferências que muito ajudarão os líderes de nossas igrejas hoje; tanto aludindo aspectos pessoais, quanto se referindo às questões inerentes ao ministério.
Algumas reflexões
1. Liderança pressupõe relacionamentos
Pedro era um líder e se preparava para exercer liderança em estágios ainda mais exigentes. Pedro sabia que liderar é conviver, caminhar, se comunicar enfim, relacionar-se com pessoas. Liderar é se relacionar. Liderar bem é se relacionar bem.
Da problemática dos relacionamentos emerge a questão da comunicação e, por decorrência, a da linguagem. Pois para nos relacionarmos bem, precisamos nos comunicar bem, e liderar é saber conversar, como bem ensinou Kim H. Krisko em seu livro “Leadership: The art of conversation – Conversation as a management tool” (1997).
Mas relacionamentos levam aos conflitos, atritos e choques de opiniões. Lidando com coisas assim, as pessoas erram, deixam a desejar, ficam, não poucas vezes a quem das expectativas dos outros e de si mesmas. Surge a necessidade do exercício do perdão. Então, liderar é também saber perdoar.
2. Liderança pressupõe paciência
“...Quantas vezes...” foi a pergunta de Pedro. A versão Revista e Corrigida trás “Até quantas vezes...”. O líder precisa ter paciência com as pessoas que lidera (Tiago 5:10). Nem todas responderão com a mesma eficácia e prontidão aos ensinamentos e diretrizes. Alguns precisarão de mais tampo para digerirem alguns princípio e alguns conceitos e alguns nunca aceitarão determinadas coisas, mas com paciência o líder dá a cada um o tempo que necessita para crescer.
O próprio líder também, em muitos casos, precisa ser alvo da paciência dos liderados. Especialmente quando o que ele deseja fazer parecer ser intempestivo ou inoportuno. Neste caso o líder precisa ter paciência consigo mesmo (I João 3:20) e com os demais. Paciência tema ver com auto-controle, aquela habilidade de controlar os impulsos...
O interessante na resposta de Jesus é que deixa claro que nem sempre há um alívio temporal para as questões inerentes à liderança... Não chegará o dia do fim da paciência; tudo precisará ser resolvi de outra forma, através da atitude do próprio líder, não pelo calendário.
3. Liderança pressupõe fraternidade
“... o meu irmão...”. Pedro se recorreu a Jesus para orientar-se sobre como deveria portar-se quando seu irmãos pecassem contra ele. A liderança cristã não poder prescindir deste pano de fundo formado pela consciência da fraternidade na qual vivemos. A igreja é uma comunidade fraterna (I Timóteo 3:15). Ser líder é também ser irmão.
O segredo para um relacionamento fraterno é precisamente o que os principais interlocutores contemporâneos da chamada liderança de serviço, como Jemes C. Hunter, que em seu livro “The world’s most powerful leadership principle” (2004), lembra uma declaração muito séria e relevante do Dr. MartinLuther King Jr., sobre servir, quando disse: “Todos podem ser grandes, porque todos podem servir. Você não precisa ter um curso universitário para servir. Você não precisa saber fazer o sujeito concordar com o verbo para servir... Você não precisa conhecer a segunda teoria da termodinâmica na Física para servir. Você só precisa de um coração cheio de graça. Uma alma gerada pelo amor.” Se você conseguir servir seus liderados, ama-los como a irmãos então você será um bom líder.
4. Liderança pressupõe disposição para perdoar
Sem disposição para o perdão o líder nunca terá relacionamentos saudáveis, jamais conseguirá ser paciente e também não será capaz de servir a uma fraternidade. Na verdade não será um bom líder. Pedro disse “... quantas vezes devo perdoar...”. Na versão revista e atualizada lemos: “... até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe?”. Pedro assumiu que deveria perdoar, embora precisasse ser orientado sobre como e com que limite deveria fazê-lo. Leia Marcos 11:25.
A chave é o amor (I Coríntios 13:7). Para perdoar o líder vai precisar amar seu liderados. Por favor, não confunda isso com declarar que ama seus liderados, pois fazer isso é fácil demais. É necessário mostrar que ama através de gestos e de atitudes concretas, mormente através de da doação de si mesmo aos liderados.
O tipo de amor que deve estar presente na liderança perdoadora está bem descrito em I Coríntios 13: paciente, bondoso, respeitável, não egoísta, perdoador, honesto, comprometido. Assim, o líder perdoa porque ama e ama porque foi amado primeiro.
Encerrando o assunto...
Liderança perdoadora é essencial na obra do Reino de Deus, pois a todo tempo estamos lidando com pessoas; e pessoas erram, mas acabam acertando se forem lideradas de forma perdoadora.
Aprendamos olhar as pessoas pelo resultado delas e não pelas fases de suas vidas. Nunca fotografemos nossos liderados e nossos irmãos num corte que isole apenas uma ou algumas fases de sua vida. Desenvolvamos a capacidade de olhar em quem elas se tornaram tendo passado por todas as fases de sua vida até aqui. E se quisermos ser ainda melhores líderes, como Jesus, olhemos as pessoas vislumbrando o que elas poderão vir a ser no futuro, se nós, como líderes, formos capazes de liderá-las de forma perdoadora, dando a elas as oportunidades de que necessitam para se tornarem também como Jesus.
Talvez sua pergunta agora seja semelhante à de Pedro: Até quantas vezes devo dar uma nova chance, uma, duas, sete?... a pergunta é semelhante, mas a resposta é exatamente a mesma: “...setenta vezes sete.”

5.5.06


Simpatia pelo Diabo

Este foi o título da música escolhida pelos Rolling Stones para abrir seu show na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, no último dia 18 de fevereiro. Cerca de 1,5 milhão de pessoas assistiram ao show. Mick Jagger entrou vestido de preto com uma roupa roxa por dentro e apresentou a música. A mídia deu conta de 203 ocorrências criminosas durante o show, entre furtos, uso de entorpecentes e esfaqueamentos.
Eu confesso que fiquei estarrecido com a canção que foi escolhida para a abertura do show, pois não apenas o título, mas a letra da música é de um insulto inexplicável à pessoa de Deus. Na verdade a letra é uma mensagem satânica. Veja a tradução:
Sympathy for the Devil
Por favor me permita apresentar-me
Sou um cara de riquezas e gostos
Eu estive por aí por muito, muitos anos
Roubei muita alma e fé
E eu estava lá quando Jesus Cristo
Teve seu momento de dúvida e dor
Esteja certo que o maldito
PilatosLavou suas mãos e selou seu destino
Grato por te encontrar
Espero que você adivinhe meu nome
Mas o que está te intrigando?
Essa é a natureza do meu jogo
Eu me fixei em S.Petersburgo
Quando eu vi que era hora para uma mudança
Matei Czar e seus ministros
Anastácia chorou na sua vaidade
Eu andei em um tanque
Mantive-me numa posição de general
Quando a guerra enfureceu
E os corpos federam
Grato por te encontrar
Espero que você adivinhe meu nome, oh yeah
Mas o que está te intrigando?
Essa é a natureza do meu jogo, oh yeah
Eu assisti com alegria
Enquanto seus reis e rainhas
Lutaram por dez décadas
Pelos deuses que eles criaram
Eu comecei a gritar,
“Quem matou os Kennedys?”
E depois de tudo
Era você e eu
Deixe-me, por favor apresentar-me
Eu sou um cara de riquezas e gostos
E eu coloquei armadilhas para trovadores
Quem estava morto antes deles atingirem Bombay
Grato por te encontrar
Espero que você tenha adivinhado meu nome, oh yeah
Mas o que está te intrigando?
Essa é a natureza do meu jogo, O oh yeah, desça, baby
Grato por te encontrar
Espero que você tenha adivinhado meu nome, oh yeah
Mas o que está te confundindo?
Essa é apenas a natureza do meu jogo
Assim como todo tira é criminoso
E todos pecadores são santos
Como cabeças são rabos
Apenas me chame de Lúcifer
Porque eu estou precisando de algumas restrições
Então, se você me encontrar
Tenha um pouco de cortesia
Tenha um pouco de simpatia, e um pouco de gosto
Use toda sua cortesia possível
Ou eu vou enterrar sua alma na solidão, um yeah
Grato por te encontrar
Espero que você tenha adivinhado meu nome, oh yeah
Mas o que está te intrigando?
Essa é a natureza do meu jogo, disponha, desça
Woo, who
Oh yeah, continue descendo
Oh yeah
Oh yeah
Oh yeah!
Diga-me baby, qual é meu nome?
Diga-me doçura, você pode adivinhar meu nome?
Diga-me amor, qual é meu nome?
Eu te digo uma vez, você é culpada
Oh, who
woo, woo
Woo, whoWoo,
wooWoo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah
Qual é meu nome?
Diga-me baby, qual é meu nome?
Diga-me doçura, qual é meu nome?
Os Rollins Stones gravaram esta música em 1968. Mick Jagger se inspirou no livro “The Master and Margarita”, do médico e escritor russo Mikhail Afanasievich Bulgakov (1891- 1940). A obra foi escrita em 1928, revisada várias vezes, censurada, cortada, criticada e publicada, por fim, após sua morte, pela esposa do autor, Elena Shilovskaia, em 1966. Trata-se de uma novela sobre o bem e o mal.
Em 1968 um documentário foi feito sob direção de Jean-Luc Godard, sobre a cultura western na Inglaterra e a música dos Stones foi tocada pela primeira vez na última cena desse filme.
Agora vejam todos, Os Rolling Stones abrem o seu show no Brasil exatamente com um convite do diabo aos jovens quarentões, cinqüentões e sessentões brasileiros. Na verdade, a música é mais que um convite, trata-se de uma ameaça das trevas: “Então, se você me encontrar, tenha um pouco de cortesia. Tenha um pouco de simpatia, e um pouco de gosto. Use toda sua cortesia possível ou eu vou enterrar sua alma na solidão, um yeah”.
Na música o Diabo se apresenta de forma clara: “Deixe-me, por favor apresentar-me. Eu sou um cara de riquezas e gostos...” e diz como prefere ser chamado: “Apenas me chame de Lúcifer, porque eu estou precisando de algumas restrições.”
Um milhão e meio de pessoas, pulando e gritando e sendo levadas ao delírio embaladas por uma exortação diabólica.... empurradas por uma apologia dos desígnios demoníacos: “Eu estive por aí por muitos, muitos anos. Roubei muita alma e fé.”
A pergunta que não cala é o que pode levar tanta gente a ovacionar o diabo, sorrir com declarações tão pesadas e mortíferas, dançar sob a regência daquele que veio “matar, roubar e destruir...” ( João 10:10 ). Incrível como você pode identificar estas três ações diabólicas na canção: destruição, roubo e morte. O que leva tantas pessoas a se entregarem com tanto gosto aos braços de Lúcifer?
A resposta é um vida vazia de sentido, um coração magro de esperança, uma alma ressequida sem amor e sem paz. Gente meio morta, sem horizonte e sem propósito para existir. Gente perdida e facilmente confundida pelo “jogo” do inimigo. Gente errante e sem Deus no mundo.
Para conseguir não cair nos braços da desgraça e da morte, aquela multidão precisaria aceitar um outro convite. Este sim, cheio de amor, de paz, de segurança e de vida... e vida para valer. O convite de Jesus não contracena com o de satanás, mas o anula e o reduz a nada. O convite de Jesus é de vida verdadeira, que começa aqui e agora e se projeta para a eternidade... e ressoa ecoando pelos séculos e milênios:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma”.(Mateus 11.28, 29 ) .

29.4.06

PESCADORES DE AQUÁRIOS

Recentemente li um texto na Internet, com o título que encima estas linhas. Já pelas primeiras linhas eu passei a esperar algo raso, mas foi pior do que eu pensava.
Pra começar, o autor anunciou no título que escreveria sobre “pescadores de aquário” e acabou escrevendo sobre “peixes” que deixam seus aquários em procura de outros por um ilimitado número de razões. Na verdade, um texto escrito para justificar aqueles líderes de igrejas que recebem muitas pessoas de outras igrejas.
Talvez até pra aliviar o peso sobre os crentes que, ao enfrentarem problemas e dificuldades com seus líderes, preferem o caminho da transferência para outra igreja; mudam de igreja, mas continuam com o coração amargurado e cheio de ressentimentos que deveriam ser resolvidos pela terapia da Palavra de Deus, mas a fuga pra outra congregação acaba por postergar o tratamento e, em alguns casos, até inviabiliza-lo.
Mas ao menos o texto aludido serviu para nos ensejar uma reflexão séria sobre o tema: “Pescadores de Aquário”. Ou seja, líderes que sobrevivem dos peixes já pescados, ou das ovelhas já arrebanhadas. Tais líderes se caracterizam, pelo que temos observado ao longo dos anos, por uma série de condutas e traços de identidade, tais como:
1. Têm o foco sempre longe dos perdidos. As palavras de Jesus em João 4:35b ( “...erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.” ) nada representam pra eles, pois sua preocupação não a urgência da pregação e conquista dos perdidos, mas sim o atrair pessoas que foram alcançadas por outras igrejas.
O problema aí, é que tais líderes perdem o propósito explicitado por Jesus na grande comissão. Mesmo que vociferem a favor dos propósitos de Deus, na verdade os rejeitam pela sua prática ministerial.
2. São preguiçosos e matêem o povo acomodado. Aqui as palavras sagradas menosprezadas são da lavra do apóstolo Paulo em II Timóteo 4:2 “que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.”
A situação aqui é terrível, pois a grande verdade é que para evangelizar, ganhar os perdidos, é preciso disposição para sair das quatro paredes, romper com a zona de conforto, quebrar os paradigmas do constrangimento e do medo e anunciar. Também é preciso criatividade, coragem e muito esforço. É preciso trabalhar! O líder precisa ir à frente e ganhar almas para Jesus. Muitos pastores nunca levaram a Cristo, pessoalmente, uma pessoa sequer! Optam pelo caminho mais curto, atrair pessoas que já foram alcançadas.
3. São tristes e frustrados no ministério. Também pudera... todos o domingos, se achegam ao púlpito e, lá de cima, olham a congregação e analisam os membros: “aquele veio da igreja tal, teve problemas com o pastor”, “aquela veio da outra igreja “x”, não foi visitada, ou queixa-se falta de atenção, “aquele outro ali, se desentendeu com a liderança daquela outra igreja”. Realmente deve ser frustrante.
A crise aqui nasce daquele sentimento de que, durante o tempo de ministério, o pastor não consegue identificar no santuário, pessoas arrancadas das trevas, do pecado, do mundo. Não podem ver quais foram aqueles que estavam nos braços de Satanás e foram tirados pela ação evangelizadora da igreja. Gente que saiu das seitas espiritualistas, esotéricas ou místicas. Gente que se gastava nas noites, nas drogas e nas orgias. Gente que estava longe da família e dominadas pelo inimigo. Ficar vários anos numa igreja e não poder ver isso, convenhamos, é muito frustrante.
4. São inseguros como líderes e fracos como pregadores. Nunca têm a direção para a igreja. O texto de Amós 3:7 “Certamente, o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.”, nada representa para eles, pois não têm segurança para pregar todo o conselho de Deus.
A tristeza aqui é que o púlpito fica comprometido. Por não conseguirem pescar, se escondem atrás de uma ação pastoral inexistente e teórica. Suas mensagens não reproduções grotescas de sermões outros, de livros ou de improvisos infelizes. Pela misericórdia de Deus pelos perdidos, as vezes logram ser usadas por Deus, mas maior das vezes cumpre o papel litúrgico e só isso.
Terminando
Como puderam ver, os “pescadores de aquário” existem e são assim como colocamos. É claro que nossa lista não é completa apenas com as características mencionadas acima, poderíamos citar muitas outras. Mas essas bastam para que nos convençamos da existência deste tipo de líderes e oremos por eles para que sejam transformados.
Tem sido atribuía a Rubem Alves, educador renomado, a parábola do Eucalipto e do Jequitibá. Aquele, árvore comum e de valor diminuto; este, árvore milenar, robusta e de muito valor. Alves compara os professores aos eucaliptos e os educadores aos Jequitibás. E sentencia: “Nunca um eucalipto se transforma em um Jequitibá; a menos que dentro do eucalipto haja um Jequitibá adormecido.”
Assim também é com os profetas e os sacerdotes. Aqueles, homens a serviço de Deus, comprometidos com os propósitos de Deus, homens corajosos, pescadores de homens! Estes, sacerdotes, homens que trabalham pela manutenção do sistema, estão a serviço da instituição e vivem inseguros com medo de perderem sus empregos.
Nunca um sacerdote vai se transformar em um profeta; a menos que dentro dele, haja um profeta adormecido. Vamos orar para Deus acordar os pescadores de homens adormecidos dentro de muitos líderes de igrejas em nossos dias!

20.4.06


Submissão à autoridade ou Sujeição ao autoritarismo?
Uma reflexão sobre o uso do poder na liderança“
“Não façam nada por interesse pessoal ou por desejos tolos de receber elogios; mas sejam humildes e considerem os outros superiores a vocês mesmos.”( Fil.2:3 - NTLH )
Lécio Dornas*



Começando...

Não, antes que você se atreva ao juízo, deixe-me lhe dizer que não é apenas uma questão de semântica. Quero convidá-lo a uma reflexão sobre como essas quatro atitudes se apresentam em nossas vidas e refletem na vida da igreja.Mas vou logo fazendo um alerta: Fuja da tentação de ler o que segue com os olhos voltados para os outros... leia pensando em si mesmo, em sua caminhada, em seus desafios pessoais, em seu futuro e na obra que Deus tem para que você realize.

A Natureza

A primeira reflexão é sobre a natureza das atitudes que encimam este artigo. Vamos ao DNA de cada uma delas:

Submissão vem do latim submissione e tem a ver com submeter-se, ter disposição para obedecer, humildade. Chega a ser curioso que se encontre nos dicionários a palavra sujeição como um dos significados de submissão. Mas, na verdade sujeição (que vem também do latim) deriva de sujectione, verbete que está mais ligado a dependência, jugo, subordinação, vassalagem, acanhamento e pejo. Assim, submissão é um ato de obediência espontânea. Enquanto que sujeição é imposta pelo constrangimento.Autoridade tem a ver com capacidade, poder, aptidão e reputação em função de conhecimento e/ou experiência em determinado contexto. James C. Hunter em seu livro “O monge e o executivo”, diz que “autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, a seu caráter e à influência que estabelece sobre as pessoas. (...) Não pode ser comprada nem vendida, nem dada ou tomada.” Autoritarismo, por sua vez, se refere a despotismo, ou seja, uma forma especial do absolutismo, exercício do poder e do mando absolutos e arbitrários. Desta forma autoridade é a reputação adquirida pela legitimidade do conhecimento e/ou da experiência, enquanto autoritarismo é a imposição arbitrária do poder. Ou seja, a pessoa é autoritária exatamente porque não tem autoridade para o exercício da liderança.

O Foco

Lembrada a natureza dos conceitos e idéias em debate neste artigo, voltemos agora nosso olhar crítico para o foco de cada uma dessas atitudes e descubramos o que elas vislumbram.Observe que o foco da submissão e da autoridade está na missão (sub-missão), no serviço. No caso da igreja, a submissão à autoridade tem o foco no Reino Deus, seus valores e interesses. O servo é submisso aos líderes em função da supremacia dos interesses do Reino.Já a sujeição e o autoritarismo têm o foco voltado para a pessoa (o sujeito ). O autoritário exige sujeição dos que o servem em função de seu próprio ego, seu desejo de ser importante ou mais importante que outros. O que se sujeita, o faz para convencer o autoritário de que ele tem o que nunca teve: autoridade.


A motivação


Agora, tomemos coragem e consideremos as entranhas dessas atitudes, desvendemos as motivações que as sustentam.A submissão é motivada pelo amor e pela fé. O submisso ama de tal forma a causa e crê tanto no seu valor e na sua pertinência, que aceita a liderança como parte deste processo e se põe a aprender nele e com ele. O que tem autoridade conduz o trabalho de forma a proporcionar crescimento e amadurecimento aos que servem sob sua liderança, pensando sempre no bem do Reino.O que acontece com a sujeição é diferente. A motivação é o medo. O que se sujeita o faz movido por este sentimento, pois o autoritário ameaça ao falar, ao olhar, ao criticar e ao exigir. Assim, impulsionado pelo terror emocional, a pessoa se sujeita aos desmandos do que é autoritário.


O propósito


Nossa tarefa agora é muito mais instigante. De posse das considerações feitas até aqui, passemos a sondar o que cada uma dessas atitudes fala sobre o que pretende quem a possui. É hora de tirar as máscaras e conhecer a verdade.O propósito da submissão à autoridade é viabilizar a liderança e possibilitar a realização do que se pretende de forma a auferir crescimento enquanto se cumpre a missão. Assim, a pessoa sabe que, submetendo-se à sua liderança e entendendo bem qual é o seu papel na missão, ela está cooperando para que o êxito seja alcançado de forma integral.Por sua vez, o propósito da sujeição é a manutenção do status quo, é garantir que ambos, o que se sujeita e o que é autoritário, continuem podendo ser quem são. A meta é perpetuar o outro onde ele está, o que se sujeita mantém o autoritário no poder, e este manipula aquele de forma a não deixá-lo crescer. Claro: se o sujeitado crescer, fará de tudo para sair debaixo do jugo do autoritário, colocando em risco o status quo.


O resultado


Você vai precisar ter muita determinação para caminhar a última milha desta jornada. Estamos perto do fim deste artigo e você é convidado a refletir sobre o fruto dessas atitudes para o Reino de Deus... é a hora de vermos o que sobrou...A relação do submisso com a autoridade produz como resultado o crescimento e o amadurecimento de ambos, o cumprimento da missão preservando os valores e os interesses do Reino e a preparação de ambos para níveis mais exigentes e elevados no espectro da missão.A relação do autoritário com o que a ele se sujeita, produz como resultado a desgraça da missão, o ódio e a indignação no coração de ambos, e o retrocesso abissal, porquanto involutivo, na jornada que se pretendia rumo à maturidade para o cumprimento da missão. Ou seja, ninguém cresce, perde-se muito tempo e recursos e a obra permanece parada.


Teminando...


Na obra da igreja de Jesus Cristo não pode haver lugar para se instalar a relação autoritarismo – sujeição. Pois no Reino de Deus o único soberano e inquestionável é o Senhor. Todos somos seus servos com grandes chances de sermos chamados amigos...O que se espera e deve se buscar na dinâmica da igreja e no cumprimento da missão no Reino de Deus, é a relação autoridade – submissão. Pois as pessoas são mais importantes do que aquilo que elas fazem e o submisso nunca é menor ou de menos valor do que o que exerce autoridade, nem este é menor que aquele. No Reino, as relações são motivadas sempre pelo amor e pela fé. A submissão é sempre, ao mesmo tempo, um ato de amor que se faz e um reconhecimento do amor que se tem. Eu me submeto a quem amo e amo o mesmo Senhor que aquele a quem eu me submeto ama. Eu me submeto a quem confio e creio no mesmo Senhor que aquele a quem eu me submeto crê.Na obra do Reino de Deus não pode ser “um mandando e outro obedecendo cegamente”, mas sim uns liderando no poder do Espírito Santo e outros se submetendo às lideranças, debaixo da mesma autoridade. Pois o Espírito é quem capacita, tanto o que lidera com a autoridade que conquistou quanto o que se submete com a sabedoria que alcançou.Devemos então orar e vigiar, para que não entremos em tentação ( do poder, da bajulação e auto-negação ), pois o espírito na verdade pode até estar pronto, mas a carne é fraca.


* Lécio Dornas é teólogo, educador, escritor, facilitador em programas de formação de liderança e de docência e pastor da Igreja Batista Dois de Julho, em Salvador – BA.